Gandhi, o Human Designer

“Um “não” dito com convicção é melhor e mais importante do que um “sim” dito meramente para agradar, ou, pior ainda, para evitar complicações.”

O autor desta afirmação consegue, em poucas palavras, tocar no ponto mais importante e difícil de lidar para grande parte da humanidade. Na frase aqui mostrada está contido um conceito muito importante para o funcionamento da sociedade – a comunicação da verdade.

Verdade interna, que nos permite viver sem medo da reacção do outro, porque o outro passa a conhecer o nosso mundo interior, a nossa perspectiva interna relativamente a um dado assunto, sem nos termos de comprometer com algo que sentimos não ser para nós e que nos remete para a seguinte parábola de Jesus Cristo:

“O reino (do pai) é como uma mulher que estava carregando um (jarro) cheio de farinha. Enquanto caminhava por (uma) longa estrada, a asa do jarro quebrou e a farinha espalhou-se por trás dela ao longo do caminho. Ela não percebeu isto; não observou qualquer problema. Quando chegou a casa, pôs o jarro no chão e descobriu que este estava vazio” – Quem não comunica a sua verdade, vai ao longo da sua vida, perdendo a sua essência.

Por medo do que os outros possam pensar ou por medo das suas reacções, comprometem aquilo que são em nome da manutenção de uma paz criada sobre alicerces muito frágeis e em nome de algo externo a si mesmo.

Mahatma “a grande alma” Gandhi foi quem proferiu a primeira afirmação aqui apresentada, que é um compêndio de como vivenciarmos o nosso Ser. O próprio sentia com certeza a dificuldade de ter um Plexo Solar totalmente aberto, de dificilmente conseguir reconhecer sentimentos e de haver algo que o puxasse para a não comunicação dos mesmos. Ainda assim, entendeu que contrariando essa tendência do seu Ser, poderia ultrapassar a barreira da mediocridade e atingir a imortalidade, só ao alcance dos que não têm receio de ser maiores do que o tamanho dos seus preconceitos e barreiras mentais impostas pelos condicionamentos.

Assim, após anos frustrantes como estudante e advogado e depois de um episódio marcante num comboio na África do Sul no qual foi vítima de racismo, Gandhi entendeu que o seu propósito passava pela comunicação da sua verdade, partindo do individual para o colectivo, sempre com o seu Amor com sabedoria.

A resistência não violenta conseguia ser mais brutal do que qualquer revolução convencional, porque a verdade é brutal para quem não está habituado a ouvi-la, porque como o próprio muitas vezes dizia: “Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida.”

Assim, começou o seu papel de político e de activista na África do Sul, tendo por lá permanecido vinte e um anos, quando o intuito inicial seria o de ficar somente por um. Lá iniciou a resistência não violenta, que provou ser mais eficaz do que qualquer outra arma até então usada. Era uma estratégia negocial de não alternativa. Já na India, durante processo negocial para uma futura independência, nas reuniões que tinha com os representantes locais da Casa Real britânica, Gandhi, com toda a amabilidade, descrevia as condições por ele pretendidas para o desenrolar deste processo. Ele não titubeava e exigia o mínimo indispensável para o seu Povo, que era não haver concessões. O autismo demonstrado em resposta às investidas dos ingleses, dá vontade de rir, mas é demonstrativo de que a força da verdade, aliada à força do coração, à força do Ser, são armas invencíveis.

Gandhi trabalhou como ninguém o seu not-self. Através da disciplina, que passava pela prática meditativa e pelo trabalho diário no tear, inibia a possibilidade de condicionamento emocional e pressão na cabeça para pensar naquilo que não era importante, conseguindo também maior energia de foco. Através da sua individualidade, trouxe originalidade, criando algo para a mutação do colectivo. Encontrou, através do seu Canal da Luta – o desenho da teimosia, um estímulo para lutar por algo que fosse maior do que ele próprio, seguindo uma direcção na vida, independentemente da opinião vigente, lutando por algo e não contra alguém.

Esta base individual serviu para a criação de padrões lógicos e de masterização para o futuro, devido ao trabalho e ao estudo, à repetição e à disciplina. Com o seu Canal da Aceitação – desenho de um Ser organizacional – com cuidado e detalhe, perspectivou o futuro, pela sua capacidade de ver a big picture, nunca se perdendo no imediato e na recompensa fácil – sempre sabendo passar a informação essencial ao colectivo, com o apoio do canal magnético por excelência, o Canal do Ritmo, desenho de deixar fluir, que viveu de forma exemplar, ao não querer controlar os acontecimentos, puxando aqueles que o seguiam para o seu ritmo – daí mais uma vez a importância da rotina e disciplina diárias.

Gandhi nunca contrariou o seu Ser. Partiu de si para o mundo, para o Todo, sem medo de arriscar, nunca desistindo do sonho, atingiu o estado de Buda, chegando a novos horizontes, sendo feliz com o dia-a-dia, sem expectativas, sem nunca perder a capacidade de autocrítica para uma melhoria contínua, o seu sonho de mudar o mundo concretizou-se e como previra, fê-lo no momento da sua morte, ao balbuciar as palavras “oh Deus”, que mudariam o destino da sua pátria de forma indelével para todo o sempre.

Gandhi era um mestre em Human Design, porque era verdadeiro consigo próprio e incorruptível no que aos seus valores e ideais dizia respeito. Luther King, perguntado sobre as suas inspirações, respondeu: “Jesus deu-me a mensagem, Gandhi deu-me o método” e o próprio Cristo afirmou: “Quem conhece tudo, mas está desprovido em si, está absolutamente desprovido”. A subtileza com que o Human Design actua naqueles que, não sendo tão iluminados como Gandhi, não conseguem por si próprios encontrar a luz e se apresentam cegos perante a ilusão, pode ser o que falta para se encontrarem. Um destes Mestres afirmou: “Aquele que busca continue buscando até encontrar. Quando encontrar, ele se perturbará. Ao se perturbar, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo.” O outro Mestre disse: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita.” A cura não acaba e não tem limite e o Human Design tem as respostas para esse insaciável caminho de autodescoberta. Que assim seja!

Pedro de Sousa Botelho

Nunca soube como, mas sempre soube que iria trabalhar com e para as pessoas. Quando descobri o Human Design, senti que poderia ser a ferramenta para mudar o mundo. Sim, se não for para mudar o mundo nem vale a pena chamar-me…

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